"O mundo que nos é apresentado revela uma organização paralela a sociedade na qual vivemos. Há momentos em que nos sentimos encarcerados por aquele presos cujas facções os acompanham dentro e fora das grades."

Os fantasmas na casa dos mortos 

 

O cinema documental ocupa um lugar de destaque na atual produção brasileira. Alguns dos melhores filmes realizados no país pertencem a este gênero. Nomes como o do falecido Eduardo Coutinho, João Moreira Salles e Maria Augusta Ramos, são responsáveis por alguns dos mais admiráveis exemplos deste registro da realidade, que é a origem do cinema. Coutinho foi o mestre das entrevistas, Moreira Salles tem seguido o cotidiano de grandes artistas como Paulinho da Viola e Nelson Freire, já Maria Augusta Ramos criou um estilo próprio, no qual o documentário é tratado como um registro quase ficcional em sua montagem, privilegiando o dia-a-dia dos enfocados.

 

 

 

"Central" acrescenta mais um destaque a esta produção. A contundência de suas imagens se deve não só a perversa realidade que enfoca, mas na forma como é concebido. Os depoimentos aparecem como reflexões dos entrevistados, sem que as perguntas sejam ouvidas. São raros os momentos que as percebemos ao fundo. O cotidiano do Presídio Central de Porto Alegre surge com a crueza e sordidez que sua realidade exibe. Imagens deste universo desumano aparecem entremeadas de depoimentos dos diversos envolvidos nele. E este é um dos méritos do trabalho.

 

Funcionários, presos e comandantes da cadeia alternam depoimentos que em alguns momentos soam como desabafos ou desafios. Há o militar que responde pelo comando narrando seus esforços para manobrar um universo sempre pronto a explodir, os funcionários do judiciário que descrevem a inutilidade de seus esforços frente a uma estrutura corroída por burocracias e inadequação aquela realidade, e até um patético libelo do representante da Pastoral Carcerária. O mundo que nos é apresentado revela uma organização paralela a sociedade na qual vivemos. Há momentos em que nos sentimos encarcerados por aquele presos cujas facções os acompanham dentro e fora das grades. A situação degradante daqueles homens alimenta sua fúria. Vivem em completo abandono e golpe final vem quando a estatística sobre a maior causa de morte nos presídios é revelada.

 

Outro acerto é a decisão da diretora Tatiana Sager de colocar nas mãos dos presos câmeras para que eles filmem as galerias, trazendo imagens inéditas das celas e corredores apinhados de gente, das refeições servidas e dos movimentos dos apenados no dia a dia. A espontaneidade das imagens contrasta com a degradação mostrada. Há trechos contundentes como a declaração do jovem prisioneiro que lamenta a má sorte da mãe, pois ela já viu o marido perecer naquele lugar e agora visita o filho, que segue o caminho do pai.

 

"Central" trata de um tema atemorizante mas é um filme que envolve. Sua mistura de denúncia e respeito humano o torna em alguns momentos comovente. Nas falas do preso veterano, do detento do sistema semi-aberto, e dos soldados da Brigada Militar que necessitam equilibrar autoridade e negociação para manter o tênue controle da situação, revela-se o ser humano. Prisioneiros e carcereiros buscam manter-se dignos para enfrentar a degradação que os cerca. O filme inicia e acaba com uma panorâmica sobre o presídio. Uma ao amanhecer e outra em um início de noite. Como se anunciasse o ciclo vicioso que domina aquela casa na qual os prisioneiros buscam algum sinal de esperança para não se tornarem fantasmas definitivos, cujo único destino é assombrar o mundo dos vivos.

 

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