Um cinema por trás das grades

19/03/2017

 

O filme retrata de dentro das celas a realidade de um dos mais precários presídios do mundo. Assim se a presenta “Central”, longa metragem dirigido pela fotógrafa e jornalista Tatiana Sager, com codireção do jornalista Renato Dornelles. Ela, experiente fotógrafa, mulher sensível e com olhar treinado para a imagem forte e para a dramaticidade das cenas. Ele, repórter experimentado, com faro para boas histórias e talento para descrevê-las. E foi uma destas histórias que inspirou o documentário “Central”: a do livro “Falange Gaúcha -a História do Crime Organizado no RS”, escrito pelo próprio Dornelles.

 

 

O longa metragem entra em cartaz em salas do Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre no dia 30 de março, mas já criou um clima de curiosidade, motivado também pela recente descoberta de um túnel que facilitaria a fuga do presídio de Porto Alegre e as atuais medidas na área de segurança e presídios. Aliás, a produção usa como ponto de partida o tal Presídio Central de Porto Alegre para traçar uma radiografia da crise nas penitenciárias brasileiras. Não é ao acaso. Foi em 2008 que o Central foi considerado o pior do país pelo Congresso Nacional e um dos piores da América Latina pela Organização dos Estados Americanos (OEA). Razão de sobra pra radiografar, com técnica cinematográfica e visão apurada de documentarista, o que se vive dentro do complexo. O mérito inicial da produção é ter mergulhado nas condições degradantes que levaram essa prisão a ser considerada a pior do Brasil e definida como “A Masmorra do Século 21” (CPI do Sistema Carcerário do Congresso Nacional).

 

E o foco da produção é diversificado. Sem perder a essência. O documentário traz o olhar dos presos que, com câmera na mão e muitas ideias na cabeça, captaram imagens nas galerias onde nem mesmo a Polícia tem acesso. Antes de ver as imagens, saber dos números pode ampliar a curiosidade do espectador. Superlotação permanente de todas as galerias há 22 anos; capacidade: 1824 presos; lotação de 4.455 (início de março de 2017); 68%são analfabetos funcionais; 67% está na faixa etária entre 18 e 24 anos; 33% são negros; e menos de 10% cometeu homicídio, crime considerado o mais grave.

 

 

 

Tatiana e Dornelles deixam transparecer o que está no imaginário popular. A superlotação, a falta de infraestrutura e de higiene, a má alimentação, o uso liberado de drogas, além de uma rotina de execuções e maus-tratos disfarçados em “um discurso de ordem”. Tudo está ali presente e pronto para atingir o olhar atento. Com depoimentos de policiais militares, de familiares, de presos, do sociólogo Marcos Rolim e de autoridades – como o juiz Sidinei Brzuska, da Vara de Execuções Criminais de Porto Alegre, e do promotor de Justiça Gilmar Bortolotto –o filme mostra diversas faces de uma mesma história. Sua busca é clara: expressar a autenticidade de um mundo que corre à margem, mas absolutamente integrado à nossa estrutura social.

 

Para Renato Dornelles, o filme tem importância vital. “O documentário é sempre atual, uma vez que trata de temas recorrentes no Presídio Central, como a superlotação e o domínio das facções”, avalia. Já Tatiana contextualiza o trabalho: “O filme aborda o crime organizado no Rio Grande do Sul, a partir das galerias da prisão, cujo controle foi entregue pelo Estado às lideranças criminosas”. Lembrando do fato ocorrido recentemente, Dornelles explica: “O túnel que estava sendo aberto para possibilitar uma fuga em massa é uma prova do poder exercido pelos grupos. A Polícia Civil estima que os criminosas tenham investido cerca de R$ 1 milhão no plano”, aponta o jornalista. O documentário é uma produção da Panda Filmes, produzido por Beto Rodrigues e Tatiana Sager; com produção executiva de Beto Rodrigues e Raquel Sager; roteiro de Tatiana Sager, Renato Dornelles e Luca Alverdi. A direção de fotografia é de Pedro Rocha e a trilha sonora original de Everton Rodrigues. A montagem é de Luca Alverdi e Ricardo Zauza, com desenho de som e mixagem de André Sittoni. Apresentado no universo dos festivais, já recebeu os prêmios de melhor documentário de língua portuguesa no FESTin — Portugal (2016), eno33˚ Prêmio dos Direitos Humanos de Jornalismo (2016) e de Finalização FACRS (2014). Também participou da seleção oficial do Florianópolis Audiovisual do Mercosul (FAM — 2016); do DocMontevideo, no Uruguai (2016); da Mostra Panorama do Festival Visões Periféricas, no Rio de Janeiro (2016); e da Mostra Gaúcha do Festival de Cinema de Gramado (2016).

 

Fonte: Correio do Povo

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

  • White Facebook Icon
  • White Instagram Icon

REALIZAÇÃO

APOIO

FINANCIAMENTO