"O filme reúne uma diversidade de argumentos que mostram a profunda inviabilidade do sistema como fator de reinserção social."

 

A lógica perversa do sistema penitenciário brasileiro se mostra por inteiro no documentário CENTRAL, O FILME. O funcionamento do superlotado Presídio Central de Porto Alegre, tido como um dos maiores e piores do país, é devassado sob diversos ângulos. As péssimas condições sanitárias e habitacionais são registradas em grande parte pelos próprios detentos, a exemplo do que fez Paulo Sacramento em “O Prisioneiro da Grade de Ferro”. “Estão fazendo um filme tipo “Carandiru”, diz um deles ao empunhar a câmera diante dos companheiros amontoados pelos corredores. Era tanta gente que as celas foram abertas para caber 5.000 pessoas onde deveriam estar 2.000.

 

Mais estarrecedor ainda é conhecer o modelo de organização que sustenta o sistema, seja pelas vozes de agentes penitenciários e autoridades judiciais, seja pelas de presidiários e seus familiares. Estamos cansados de ouvir e saber que as prisões brasileiras são fábricas de criminosos, mas a maioria de nós ainda não conhecia esses mecanismos da forma como o filme nos mostra. Entre acusações ao estado omisso e defesas de policiais acuados, o que vemos é uma “administração compartilhada”. A polícia guarda as grades e finge que controla a situação, mas quem gere todo o presídio são as facções criminosas com seus braços estendidos para fora do complexo.

 

Quanto mais houver corrupção, movimentação de drogas e liberdade para o crime se organizar dentro da cadeia, mais tranquilidade existe para todos e menos gastos para o estado. Enquanto isso, um capitalismo especialmente selvagem se expande pelas galerias do “Central”, com o comércio e o tráfico mantendo estruturas de privilégio, liderança e lealdade entre os presos.

 

Baseado no livro “Falange Gaúcha”, de Renato Dornelles, que assina a codireção do filme de Tatiana Sager, CENTRAL vai bem além da superfície do problema. Não estaciona na exposição crua do cenário prisional nem na coleta de depoimentos previsíveis. Ao contrário, reúne uma diversidade de argumentos que mostram a profunda inviabilidade do sistema como fator de reinserção social.

Fonte: https://carmattos.com/2017/03/30/galerias-de-ontem-e-de-hoje/

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