Entranhas do Cárcere

 

 

Fugindo do ponto de vista comum de que “bandido bom é bandido morto”, o documentário Central retrata o cotidiano e as condições dos apenados de um dos piores presídios da América Latina, o de Porto Alegre. Dirigido pela jornalista Tatiana Sager, o longa é baseado no livro escrito pelo também jornalista Renato Dornelles (que codirige o longa) em 2008. Em Falange Gaúcha - o Presídio Central e a história do crime organizado no RS, Dornelles reproduz uma série de reportagens que abordam o modelo penitenciário, a superlotação e falta de condi- ções encontradas no local.

 

Se o caos na segurança pública do Estado e as rebeliões em presídios no País já se tornaram uma constante, talvez o longa alcance um papel didático para explicar como uma ferramenta que deveria diminuir a criminalidade atua de forma contrária, como universidade do crime. Com aspecto de O cortiço, de Aluísio de Azevedo, a penitenciá- ria da Capital apresenta esgoto a céu aberto e se parece mais com um depósito de gente. Não à toa, o Central foi considerado o pior presídio do Brasil e definido como a “Masmorra do Século 21” pela CPI do Sistema Carcerário do Congresso Nacional.

 

A narrativa é composta por depoimentos de policiais militares e autoridades, como o juiz Sidinei Brzuska, da Vara de Execuções Criminais de Porto Alegre, o promotor de Justiça Gilmar Bortolotto, o sociólogo Marcos Rolim, bem como dos próprios apenados e seus familiares. O que se constata é a falência do Estado e do sistema carcerário e seu fracasso na missão de ressocializar os indivíduos.

As imagens foram gravadas pelos próprios detentos – nem os guardas são autorizados a entrar nas galerias – e expõem o ambiente insalubre, o uso de drogas, a superlotação e a força das facções que usurpam o poder do Estado e são quem controlam os próprios criminosos. A sobrevivência no cárcere privado só ocorre por meio de trocas de favores, testes de iniciação e subordinação dos novatos aos grupos que controlam cada ala do presídio, ou seja, o preso não come, não se veste, não recebe medicamento se não tiver autorização do chefe.

 

Tatiana, que já trabalhou em coberturas como a do motim de 1994, sempre se interessou pelo tema da situação carcerária no Brasil. A ideia de transformar Falange Gaúcha em documentário surgiu ao natural, logo no lançamento do livro. “O Renato é muito meu amigo, e quando ele lançou o livro, eu pedi os direitos para filmar, e então colocamos em editais até que fomos selecionados com o curta-metragem Poder entre as grades”, explica. A partir daí, os jornalistas perceberam que o material tinha capacidade para se transformar em um longa.

 

Como inspiração, a diretora de Central cita outras produções do cinema brasileiro, como Notícias de uma guerra particular, Ônibus 174 e O prisioneiro da grade de ferro. Contudo o documentário faz um corte inédito ao abordar de forma tão visceral o cotidiano no presídio. “Esse é um assunto muito necessário e com poucos materiais sobre o tema. É essencial que as pessoas entendam como funciona o sistema carcerário para compreenderem melhor o que está acontecendo e esse aumento da violência no País”, afirma Tatiana.

 

A missão de Tatiana como jornalista vai ainda além da produção do longa, e a diretora realiza sessões do filme na Fase com o objetivo de conscientizar jovens sobre a vida no Central. “Quero que eles saibam que até ali eles têm volta, mas que, quando entram na prisão, o caminho é um só”, conta.

 

Além disso, as 200 horas de gravação serão utilizadas em outros projetos que abordam o cotidiano e as implicações do sistema prisional no País. Segundo Tatiana, estão previstas uma série, Retratos do cárcere, que retrata a situação nos presídios no Brasil; o longa Pequenos escravos do cárcere; e a continua- ção do livro Falange gaúcha.

 

Produzido pela Panda Filmes, Central já recebeu os prêmios de Melhor Documentário de Língua Portuguesa no FESTin – Portugal (2016), de Melhor Documentário no 33º Prêmio dos Direitos Humanos de Jornalismo (2016) e de Finalização FAC-RS (2014). Além dessas premiações, participou ainda da seleção oficial do Florianópolis Audiovisual do Mercosul (FAM), em Santa Catariana (2016); do DocMontevideo, no Uruguai (2016); da Mostra Fronteiras, no Festival do Rio (2016); da Mostra Panorama do Festival Visões Periféricas, no Rio de Janeiro (2016); e da Mostra Gaúcha do Festival de Cinema de Gramado (2016).

 

Fonte: Jornal do Comércio

 

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